Ia no autocarro entre o aeroporto de Keflavik e a escola onde íamos estar alojados nos próximos quatro dias, perto de Thorlakshofn, e aproveitei para inquirir o Úlfur, islandês, sentado ao meu lado, como é que começavam as auroras boreais, aquilo por que todos os portugueses na viagem estavam excitadíssimos para ver. Ele explicou-me que no início começa-se a ver algo branco no céu a mover-se e só mais tarde, e caso ganhe força suficiente, é que se chegam a ver os tons de verde ou até rosa, dependendo que camada da atmosfera estes ventos solares estão a cruzar. A viagem era longa e eu pus-me a observar a escuridão de quilómetros e quilómetros sem uma única casa, sem um único habitante. Até que começo a ver algo branco no céu, segundos depois desta conversa. Estaria a sonhar? Pergunto a Úlfur se ele vê o mesmo que eu e ele confirma-me que aquilo era o ínicio de uma aurora boreal. A Islândia não nos podia ter recebido de melhor maneira!

As auroras boreais são causadas pelo impacto de partículas de vento solar com a alta atmosfera da Terra, canalizadas pelo campo magnético terrestre e são impossíveis de prever, embora os islandeses terem criado um sistema de previsão das “luzes do norte” numa escala de 0 a 9 e de apenas três dias. Assim, nessa primeira noite, e porque não sabíamos se voltaríamos a ter a oportunidade de ver mais algumas, passámos algum tempo a olhar para o céu e a ver estas manchas brancas, que só mudaram de cor para a câmara em longa exposição, mas não para os nossos olhos.

Fui à Islândia para um evento da AFS, o Chapter Exchange, que reunia dez voluntários de cada país da Alemanha, Eslováquia, Islândia e Portugal. Ficámos três dias numa antiga escola “relativamente” no meio do nada, uma vez que tínhamos duas ou três casas vizinhas à vista, a discutir a multiculturalidade da Europa, nomeadamente a inclusão de refugiados nas nossas sociedades. À hora de almoço subíamos à pequena colina mais próxima, passando por um riacho de água quente e avistando ao longe o mar e um glaciar, com um daqueles nomes impronunciáveis. Noutro dia podíamos ir até à estrada, que ainda ficava a uns 300 metros, e pelo caminho observar os cabeludos e baixos cavalos islandeses, enquanto éramos seguidos pelos simpáticos cães dos vizinhos.

Mas era à noite que a magia acontecia e tivemos a imensa sorte de ver auroras boreais em todas as noites que estivemos na Islândia! A da segunda noite já foi mais forte, em tons de verde. Rapidamente improvisávamos tripés com bancos , trazidos a correr de dentro de casa, pois tal como não é certo se as luzes do norte vão aparecer, também não é certo quando vão desaparecer. Havia sempre alguém de sentinela, que de vez em quando ia à rua ver de que cor estava o céu.

Mas foi na terceira noite que todos ficámos boquiabertos. Há algumas horas que o céu estava esverdiado, mas num tom muito pálido. Era quase meia noite quando eu decido ir para a cama, mas só para confirmar, espreito pela janela do quarto… continuava aquele tom pálido, mas decido na mesma agarrar na câmara e tirar uma fotografia. Durante os segundos que me levaram a ir buscar a câmara e voltar o céu ganhou vida. Riscos verdes e rosa moviam-se no céu a grande velocidade, pelo enorme vento que se sentia, de um tom brilhante como nunca tínhamos visto, nem íamos voltar a ver. Acordei todas as meninas do quarto, ficámos ali uns minutos, histéricas, a apreciar o momento, até decidirmos ir mesmo para a rua. Aí víamos uma estrada no céu onde os ventos faziam corridas a ver qual chegava mais rápido ao horizonte. E em terra havia uma corrida à fotografia, para relembrar uma das noites mais inesquecíveis das nossas vidas.