Tenho andado “desaparecida”… No último mês não postei nada porque finalmente consegui voltar do México, depois de mais de três meses fechada em casa sem que a Iberia me oferecesse uma solução para regressar a Portugal. Depois de um longo voo para Madrid e de um autocarro para Lisboa, que quase ficava na fronteira, cheguei. Daí a adaptar à nova realidade um pouco mais aberta de Lisboa, ao jet-lag, e a rever família, pouco tempo restou para outras coisas. E depois fui de férias!

A minha mãe tinha férias marcadas e eu, como sabem, “de férias à força”, pelo que decidi juntar-me aos planos dela. E que planos eram estes? Fazer o Caminho Inglês de Santiago e depois passar dois dias nas Ilhas Cíes. Do Caminho falo-vos mais tarde, pois não consigo esperar para partilhar com vocês este paraíso de arquipélago ao largo de Vigo!

As Ilhas Cíes são um dos quatro arquipélagos que fazem parte do Parque Nacional Marítimo Terrestre das Ilhas Atlânticas da Galiza (sendo os outros três o de Ons, de Salvora e de Cortegada). As Ilhas Cíes são três, Monte Agudo, Faro e San Martiño, também conhecidas como a ilha do Norte, do Meio e do Sul. As primeiras duas estão interligadas pela Praia de Rodas, considerada pelo jornal The Guardian a melhor praia do mundo – talvez fosse se a água não estivesse a 15ºC – , e por uma passagem/ponte, construída pelo homem, que forma uma lagoa considerada um aquário natural.

É a estas duas ilhas que chegam os ferries, à ilha do Sul só é possível chegar de barco privado. Para quem não tem a sorte de ter um, a única forma de chegar às Cíes é a partir dos portos de Vigo, Baiona ou Cangas. Existem três companhias a fazer estes trajectos (Piratas de NabiaMar de Ons e Cruceros Rías Baixas) e os bilhetes podem ser comprados online no site de cada uma e custam cerca de 20€ ida e volta. O trajecto demora cerca de 45min. Se forem directamente de Portugal não se esqueçam que o fuso horário em Espanha é de mais uma hora.

Para visitar as ilhas Cíes é também necessário uma autorização, gratuita, da Xunta de Galícia pois há um controlo diário do número de pessoas que visitam as ilhas (neste momento é de 800, provavelmente por causa da pandemia, mas já li noutros lugares que podia chegar às 2000). Mesmo para pernoitar em barco próprio, perto das ilhas, é necessário pedir uma autorização para fundear. Até para fazer mergulho é preciso pedir autorização!

É possível dormir na ilha, num parque de campismo com vista sobre a lagoa, onde se pode alugar tendas com camas, até 4 pessoas, ou pode-se levar a própria tenda (metade do preço, optámos por esta opção por duas noites). Este é o único alojamento disponível nas ilhas e a reserva é obrigatória. A reserva já inclui a autorização da Xunta de Galícia, pelo que nesse caso não é necessário fazer o pedido. Atenção que desde o cais até ao Parque de Campismo temos de caminhar cerca de um quilómetro pelo que quanto menos coisas se levar, melhor.

Nós íamos preparadas com alguma comida pois tínhamos lido que só havia um restaurante nas ilhas e imaginámos que seria caríssimo, mas fomos surpreendidas! Dentro do Parque de Campismo há um restaurante, uma cafetaria e um supermercado e fora do parque de campismo há mais três restaurantes / cafetarias. Os preços também não são proibitivos, um jantar para duas pessoas – dois pratos muito bem servidos, duas cervejas locais e uma sobremesa a dividir – ficou por cerca de 25€. Vimos no entanto algumas filas à hora de almoço. Por toda a ilha também há mesas de piquenique – neste momento vedadas por causa do coronavirus – pelo que será agradável levar a própria comida. Atenção que só há contentores de lixo nos restaurantes, pelo que o melhor é levar um saco para trazer o próprio lixo de volta para o continente.

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Contando agora a história da nossa visita às Ilhas: nós apanhámos o barco em Baiona numa 5ª feira às 11h15 (optámos por Baiona por ter menos gente e ser mais perto de Portugal, mas a partir de Vigo haverá mais horários de saída e apesar de ligeiramente mais longe, o tempo desde a fronteira é o mesmo). Vínhamos de Pontevedra e por não querer deixar o carro num estacionamento pago, uma vez que íamos ficar 48h, acabámos por não ter tempo de ver a bonita vila à beira mar plantada, gastando cerca de 30min à procura de lugar. No porto trocámos as reservas online por bilhetes e já na fila para o barco pediram a autorização da Xunta. Não sei se pela pandemia, ou por já estarem habituados ao trajecto, eu era das poucas no exterior a tirar fotografias. Desde Baiona, e por já apanhar mar aberto, o trajecto é um pouco atribulado. Pelo caminho passamos por outras ilhotas, as Estelas. Como a vista era só da proa, uma vez que o deck superior ia cheio, a vista para o destino não era a melhor. Mas a chegada àquela Praia de Rodas, de areia branca e mar turquesa, ainda com pouca gente, é a melhor recepção que se pode ter!

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Caminhámos então até ao parque de campismo, atravessando a pontezinha e ficando logo maravilhadas com a quantidade de peixes na lagoa. Montámos a tenda um pouco a custo, pois as ilhas são bastante ventosas, e decidimos ir fazer um piquenique para a praia. Olhámos para o mapa e vimos que a Praia dos Bolos, a ponta sul da Praia de Rodas, poderia ser mais abrigada uma vez que tem um rochedo, a Ponta das Vellas, a proteger do vento norte. Tivemos mesmo de ir para o rochedo para comer, pois não se aguentava com o vento de outra forma – a propósito, levar um corta-vento é obrigatório!

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Decidimos ir então para a praia Figueiras, uma praia mais abrigada do vento e onde é permitido fazer nudismo, embora os nudistas estejam maioritariamente no fundo da praia. Depois de uma sesta (afinal estamos em Espanha) decidimos fazer uma caminhada – na verdade tudo o que há para fazer nas ilhas é ir à praia ou fazer trilhos.

Nas ilhas Cíes há quatro trilhos, dois na ilha Norte e dois na ilha do Meio. Já que já estávamos na praia Figueiras, na ilha Norte, optámos logo por fazer a caminhada até ao Faro do Peito, que tem um desvio para observação de aves, que é de onde se tem a melhor vista do percurso, para o Monte Agudo e o arquipélago de Ons. O outro trilho é um desvio de 750m para cada lado, desde o primeiro trilho, que chega ao Alto do Príncipe, o único ponto acessível onde é possível ver do alto a ligação entre as duas ilhas. Quando digo acessível é porque não é permitido sair dos trilhos, pois a ilha na verdade é das gaivotas e não nossas – mas não há assim tantas quando comparamos com as Berlengas, por exemplo. (In)felizmente visitámos as ilhas demasiado perto do solstício, pelo que o sol só se punha por volta das 22h15, o que tornava difícil estar lá em cima a essa hora. Voltámos ao parque de campismo, onde jantámos e fomos dormir, pois no dia seguinte acordávamos cedo para ver o nascer do sol.

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No dia seguinte acordámos pouco antes das 7h para ver o nascer do sol. A vantagem de Espanha não ter o fuso horário correcto deixa-nos dormir mais um pouco, pois o sol só aparece às 7h15. Fomos então até à Praia de Rodas esperá-lo. É sempre maravilhoso ver o sol calmamente aparecer! Decidi fazer toda a praia a pé, enquanto que a minha mãe regressou à tenda para dormir mais um pouco. Antes das 8h já tinha caminhado 3,5km, nada mal para começar o dia!

Quando a minha mãe finalmente acordou, tomámos calmamente o pequeno almoço e decidimos voltar à Praia de Figueiras, desta vez lá para o fundo, onde está mesmo abrigado do vento. Ainda assim este segundo dia estava bastante mais ameno! Menos vento, mais calor e menos gente, segundo os nadadores salvadores que me fizeram um penso para eu andar à vontade na areia – para quem não segue o meu instagram, um dia antes da partida para a viagem bati com o mindinho com tanta força que parti a unha ao meio e cortei um bife do dedo… A praia estava de facto fabulosa, embora a água nunca deixasse de estar gelada, e só saímos de lá pois queríamos fazer os outros dois trilhos, os da ilha do Meio.

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Decidimos começar pelo trilho do Faro da Porta, o mais fácil. Apesar da vista panorâmica das ilhas desde o Alto do Príncipe do dia anterior ser imbatível, os trilhos da ilha do Meio são mais cénicos durante todo o percurso. Começam ambos ao pé da praia de San Martiño, também super bonita, mas por ser estreita, estava demasiado cheia para o nosso gosto. Continua sempre junto ao mar, com uma vista constante para a ilha do Sul, passa por um pontão onde o barco de recolha do lixo passará e onde vários veleiros e iates podem fundear e chega então ao primeiro farol desta ilha. O segundo, o Faro de Cíes, onde íamos a seguir, fica bem acima de nós, a 175m de altitude.

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Há um atalho entre os dois trilhos, mas que infelizmente está fechado durante a primavera / verão por ser zona de nidificação das gaivotas, pelo que tivemos de regressar à praia de San Martiño para começar a subir para o outro Farol. Ver o Faro da Porta, lá em baixo, subindo em direcção ao Faro de Cíes, faz-nos pensar que o primeiro trilho “é para meninos”. O trilho não é super exigente e a pendente nunca é muito íngreme, mas não deixa de ser uma grande subida! A parte final do trajecto é um ziguezague de várias voltas até chegar ao cume de onde se vê a ilha do Sul, a costa da Galiza para sul, Vigo, as ilhas de Ons e parte da ilha do Norte. Aí, naturalmente, volta a haver bastante vento. Também neste trilho há um pequeno desvio de 300m para a Pedra da Campá, uma pedra com dois furos, como uma janela, por onde se verá mais tarde o pôr do sol.

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Voltámos ao parque de campismo, tomámos banho (diariamente temos direito a 3min de água quente e depois poderá pagar-se se for necessário mais tempo) e quando íamos jantar demo-nos conta que havia imensa gente na “ponte” entre as duas ilhas e demo-nos conta que faltavam 15min para o pôr do sol! Que melhor coisa poderíamos fazer se não ir até lá e vê-lo cumprir o seu ciclo por aquelas bandas? E demorou tanto! Acho que nunca tinha visto um pôr do sol tão lento! Será por estarmos mais a norte? Alguém saberá explicar-me o fenómeno? Desde a fotografia que partilho, até desaparecer completamente foram 3min!

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No dia seguinte acordámos às 8h da manhã pois o barco de regresso a Baiona era às 10h30 e ainda tínhamos de arrumar tudo, tomar o pequeno almoço e desmontar a tenda. Por um lado ficámos com muita pena de ir embora pois parecia que o dia prometia – zero vento e uma temperatura muito agradável. Por outro lado era sábado e se já demos conta do aumento do número de pessoas na noite anterior, no parque de campismo, enquanto esperávamos pelo barco percebemos que nesse dia a ilha ia estar na sua máxima capacidade! Despedimo-nos dos peixinhos do “aquário” e nós as duas e outro casal, voltámos para Baiona – sim, só 4 pessoas mais a tripulação, vantagens de regressar num sábado de manhã!

Pelo caminho vimos toda a ilha, os vários trilhos por onde passámos, os barcos fundeados que tínhamos visto chegar no dia anterior e a ilha do Sul. Tivemos também a breve visita de um golfinho! A tripulação disse que eram quatro, mas tanto eu como a minha mãe só vimos um… E assim terminou a nossa semana na Galiza!

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